Promotores procuram soluções amigas do ambiente para a falta de neve.
Gosta de praticar esqui? Está a pensar comprar um chalé coberto de neve nos Alpes? Então pense bem antes de tomar uma decisão. Segundo um relatório recente da Organização Mundial do Turismo da ONU, os cumes gelados das montanhas estão a derreter, o que conduzirá ao encerramento de muitas estâncias de desportos de Inverno nas próximas décadas. “Daqui a 50 anos todas as estâncias de esqui abaixo dos 1.200 metros não terão hipótese e terão que encerrar”, afirma Michel Revaz da Cipra, uma sociedade de conservação da natureza alpina sedeada no Liechtenstein.
Estas previsões são terríveis para nomes bastante familiares como Megève em França, Gstaad e Klosters na Suíça ou Kitzbühel na Áustria – estâncias que estão a uma altitude menor -, mas há quem sinta que estas previsões falham por serem demasiado optimistas. Os Alpes têm vindo a aquecer a uma velocidade três vezes maior do que a média global, segundo um relatório de há dois anos por parte da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico. Conclusões que estão a chocar o mundo do esqui uma vez que, a estarem certas, vaticinam o fim para dois terços das zonas de esqui dos Alpes.
Com um aumento da temperatura média de dois graus centígrados apenas, esquiar a altitudes abaixo dos 1.500 metros tornar-se-á impossível numa questão de décadas. Más notícias para os investidores em regiões de esqui como Les Portes du Soleil, Wengen e Crans Montana na Suíça.
Queda de neve baixa 60%
A revista New Scientist referiu no ano passado que a queda de neve nos Alpes baixou cerca de 60% desde o final dos anos 80 e Christoph Marty, do Instituto Federal Suíço de Investigação de Neve e Avalanches afirma que o número de dias de neve nos últimos 20 anos é mais baixo desde que este tipo de registos começou há mais de 100 anos.
Mas há mais. O aquecimento global está a ameaçar o esqui, mas os esquiadores também não estão isentos de culpas. Isto porque as estâncias estão a ver-se obrigadas a construir cada vez mais em altura e a abater cada vez mais árvores para construir meios mecânicos, estradas e lançar neve para prolongar a estação natural. Contudo, Andrew Holden, professor de turismo e ambiente na Universidade de Bedfordshire, no Reino Unido, afirma que temos vindo a assistir a uma mudança de comportamento por parte das estâncias, promotores e todos aqueles que estão a planear comprar nessas zonas.
“Uma vez que o futuro de muitas estâncias de esqui a baixa altitude estão a ser severamente ameaçadas, elas vão ter que diversificar”, afirma Holden. “O turismo é o principal sector económico para muitas destas regiões e é difícil conceber uma alternativa, excepto se todos estiverem preparados para se adaptarem. E será preciso também uma alteração dos comportamentos dos esquiadores, visitando os seus chalés com menos frequência e fazendo estadias mais prolongadas.
Promotores mais “verdes”
A questão que se coloca é saber até que ponto os compradores podem investir em imobiliário nos Alpes de forma suficientemente sustentada, garantindo ao mesmo tempo que os seus netos possam ter montanhas nas quais possam brincar na neve.
Veja-se o exemplo de Val Thorens, França, uma das maiores e mais concorridas estâncias da Europa. Com o charme de um subúrbio de Paris e um volume de construção denso onde os preços começam nos 98 mil euros para um pequeno apartamento com dois quartos, esta estância tem vindo a acordar para a necessidade de ser ambientalmente sensível. Instalou elevadores movidos a energia hidroeléctrica renovável, plantou mais de 200 mil árvores nos últimos 20 anos, reconstruiu o sistema de esgotos para impedir a poluição e as lâmpadas dos candeeiros nas ruas são agora de baixo consumo.
Les Arcs, outro destino francês, enterrou os seus cabos de alimentação, proibiu a circulação automóvel nas zonas da estância e limitou o esqui fora de pista para proteger o galo-lira, uma espécie animal ameaçada. Esta estância retirou rochas e pedras numa pista para tornar a descida mais suave, plantando depois aí relva alpina dura.
Exclusivo Financial Times
Tradução de Carlos Tomé Sousa

